domingo, 9 de abril de 2017

A Mulher de 30 Anos - Honoré de Balzac 

"Para um jovem, em uma mulher de trinta anos existem encantos irresistíveis; e nada mais natural, mais fortemente entrelaçado e predestinado, do que tais profundas ligações, cheias de exemplos que a sociedade nos oferece.... De fato, uma moça está cheia de ilusões e inexperiência, e o sexo é perfeito cúmplice de seu amor, para que um homem possa vangloriar-se de conquistá-la; mas uma mulher madura conhece toda a extensão dos sacrifícios a serem feitos. Enquanto a moça é movida pela curiosidade, por seduções estranhas ao amor, a mulher madura segue sentimentos conscientes. A moça cede, a mulher escolhe. A sua escolha já não é uma imensa lisonja? Armada de uma sabedoria quase sempre paga com sofrimentos e caro demais, a mulher experiente que se entrega parece dar mais do que a si mesma, enquanto a moça, ignorante e crédula, se nada sabe, nada sabe comparar, nada avaliar, aceita o amor e o analisa. Uma nos instrui, aconselha-nos numa idade em que adoramos deixar-nos guiar, quando a obediência vem a ser puro prazer; a outra deseja aprender tudo e mostra-se ingênua bem ali onde a experiência é terna. A moça só nos dá um único triunfo, a mulher nos obriga a eternos combates. A primeira só possui lágrimas e prazeres, a segunda é cheia de volúpias e remorsos. Para que a moça seja a amante, ela precisa ser muito corrompida, e nós logo a abandonamos, horrorizados; mas uma mulher experiente possui mil formas de conservar, ao mesmo tempo, todo o seu poder e a sua dignidade. Uma delas, submissa demais, oferece-lhes as tristes seguranças do repouso; a outra perderia muito se não pedisse ao amor todas as suas mil metamorfoses. Uma se desonra sozinha, a outra destrói uma família inteira em nosso favor. A moça só conhece um papel, o de coquete, e imagina que tudo está dito, quando tira toda a sua roupa; a mulher sabe todos os papéis e esconde-se em mil véus; enfim, ela acaricia todas as vaidades, ao passo que a noviça só acaricia uma destas. Aliás, agitam-se indecisões, terrores, medos, turvações e tempestades, na mulher de trinta anos, jamais encontrados no amor de uma moça. Ao chegar aos trinta anos, a mulher pede a um jovem para devolver-lhe a autoestima que a ele sacrifica; vive só para ele, cuida de seu futuro, deseja-lhe uma vida bela, cheia de glórias; ela obedece, implora e comanda, rebaixa-se e se eleva, sabe consolar mil acontecimentos, enquanto a moça só sabe gemer. Enfim, além das vantagens de sua posição, a mulher de trinta anos pode vir a ser moça, representar todos os papéis, ser pudica, embelezar-se até mesmo com as próprias desgraças. Entre elas, encontra-se a força e a fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz a tudo, e a moça, se não quiser deixar de existir, nada deve satisfazer. São essas as ideias que se desenvolvem no coração de um jovem, e nele transformam-se nas mais fortes paixões, pois unem os sentimentos fictícios, criados pelos costumes, aos sentimentos reais da natureza."


(Trecho do livro "A mulher de trinta anos" de Honoré de Balzac)